Patrícia Vasconcelos: “Continuo a ter o mesmo prazer que tinha no primeiro dia”

Carrega às costas um legado sonante, mas Patrícia Vasconcelos não é apenas filha do realizador António-Pedro Vasconcelos. Directora e co-fundadora da ACT-School, professora, cantora de Jazz, mãe e a “rainha dos castings”. Há 28 anos revolucionou a televisão e o cinema portugueses quando se afirmou como directora de castings e introduziu a palavra no vocabulário do mundo audiovisual. É no Jardim das Amoreiras, aquele que diz ser o sítio mais bonito em Lisboa, que relembra como se iniciou numa área que ainda não existia e aceita conversar sobre Passaporte, um dos grandes projectos que tem hoje em mãos.

Em Portugal, quando se pensa em direcção de casting, pensa-se na Patrícia Vasconcelos. Isto tem a ver com o facto de ter sido a primeira?

Sim, antes de eu começar, em 1989, ouvia-se falar em audições e testes, mas casting não era sequer uma palavra utilizada no meio cinematográfico. Nos outros países sim, mas aqui ainda não tinha chegado. Foi quando eu própria me confrontei com a palavra casting que tudo começou.

Quando é que isso aconteceu?

Eu não vivia em Portugal, estive fora durante muitos anos, e quando voltei acabei por ir parar a um filme que o meu pai estava a preparar. Era uma co-produção com quatro países, um filme de época chamado “Aqui D’El Rei!”, com muito dinheiro envolvido. Tudo o que havia de melhor estava lá. Eu fui-me apercebendo que havia recorrentemente queixas, nomeadamente, com alguns actores escolhidos que não acertavam na deixa, ou não acertavam naquilo que o realizador dizia para fazer.

Quem é que escolhia os actores nessa altura?

Lembro-me de perguntar às minhas colegas do departamento francês e houve uma que me disse “C’est le casting”. Eu nem sabia o que era isso do “casting”. Havia um figurante que, numa cena com o Joaquim de Almeida, só tinha de abrir uma porta e dizer meia dúzia de palavras. Mas ele não conseguia acertar na cena e perguntei quem o tinha escolhido. Disseram-me que tinha sido uma agência de figuração em Portugal e foi aí que me apercebi que cá não havia essa profissão, não havia esse trabalho cuidado.

E depois?

Depois, por circunstâncias familiares, acabei por ir parar a Paris durante uns tempos e lá pesquisei a dita palavra “casting”. Fui descobrindo este ofício e identifiquei-me com ele, achei que era a minha praia. Estava numa altura da minha vida em que ainda não sabia muito bem o que queria fazer e de repente descobri aquilo.

Como é que daí chegou a “rainha dos castings”?

Rainha sem trono, não é? (Ri) Eu acho que foi precisamente porque não havia ninguém nesta profissão. Eu fui-me impondo e trouxe uma nova roupagem ao cinema. De repente havia actores novos, coisas novas, caras frescas. No fundo, foi uma junção várias coisas a acontecer ao mesmo tempo. Começou uma nova profissão a aparecer.

Na prática, em que consiste exactamente o trabalho de um director de casting?

Quando lemos um livro, acabamos por começar a imaginar um bocado as personagens, não é? Ou pelas características que o próprio escritor nos dá, ou porque a nossa imaginação nos leva lá. Para além de eu fazer isso, tenho mesmo de pôr um actor a dar vida àquele personagem. O meu trabalho consiste nisso. O realizador ou produtor dá-me uma história e pede-me para apresentar propostas de actores que possam encaixar naquilo.

O seu nome e o facto de ser filha de quem é abriu-lhe muitas portas?

Não, até foi bem duro ao princípio. Os meus potenciais clientes eram os realizadores, todos aqueles que eu conhecia desde que nasci. Não me levaram nada a sério. Nada. Não houve nenhum que me tivesse dado trabalho. Os primeiros a fazê-lo foram os mais jovens, os que ainda estavam a começar. Eu tive que batalhar e chegar lá sozinha e pelo meu mérito próprio. Provar-me filme após filme.

Ainda assim, a relação com o seu pai influenciou-a a escolher determinados caminhos?

Com certeza! O meu pai é uma influência muito importante na minha vida e, apesar de haver coisas com as quais eu não concordo (e digo-lhe), há um respeito muito grande e trabalhamos juntos há muitos anos.

Como é quando trabalham juntos?

É exactamente igual. A única coisa que muda é que ele me telefona ao domingo e eu atendo. De resto, eu trato-o da mesma maneira, ele trata-me da mesma maneira. Respeita o meu trabalho como eu respeito o dele.

Na primeira fase do seu percurso profissional, quais foram os nomes que mais a inspiraram?

Uma casting director francesa, chamava-se Margot Capelier. Essa sim era a rainha dos castings. Uma coisa absolutamente espectacular, genial mesmo. Eu tive a sorte de a conhecer. Marquei um encontro, ela recebeu-me e deu-me a lição da minha vida. Em dois minutos disse-me duas ou três coisas que fizeram de mim muito daquilo que eu sou a nível profissional.

O que é que ela lhe disse?

Ela recebeu-me e eu disse-lhe que queria fazer casting em Portugal. Isto em 1988. Perguntou-me se eu conhecia a Maria de Medeiros. “Sim, claro”, disse-lhe. “Conheces o Luís Miguel Sintra?”. Também lhe disse que sim. Depois disse-me um terceiro nome que ainda hoje sou incapaz de identificar. Eu fiquei assim… a olhar para ela e disse-lhe “Non”. “Primeira regra do casting, tens que os conhecer a todos. Boa sorte, tcau”. Levantou-se e mandou-me embora. Só isto. A partir daí dediquei-me a conhecê-los a todos.

Mas há uma quantidade enorme de possíveis actores. Como é que consegue fazer essa gestão?

Tenho um arquivo próprio, organizado à minha maneira. Depois tenho de saber traduzir bem a ideia que está na cabeça do realizador. Sugiro nomes, ele pode dizer-me “Não, não é bem por aí” e continuo a sugerir nomes até acertar na ideia dele.

Alguma vez optou por um actor que foi aceite pelo realizador, mas depois lembrou-se de um outro nome que até podia encaixar melhor?

Eu costumo dizer que no dia em que isso me acontecer, fecho a loja. É a pior coisa que pode acontecer a um casting director. Temos de passar todos em revista. Mesmo assim, a escolha é muito subjectiva porque não deixa de ser a minha visão e a minha leitura. Mas a partir do momento em que é o actor é escolhido, ele apropria-se daquele papel e já nem sequer conseguimos imaginá-lo com outra pessoa.

E casos em que soube logo quem era o actor ideal?

Já houve vários. O caso mais flagrante e mais recente foi o do José Mata no “Amor Impossível”. Eu li o guião e disse “Este papel é para ele”, mas levei algum tempo a convencer o meu querido pai e o Zé teve de fazer uma série infinita de testes. Tenho a sensação que às vezes vejo beyond o que os próprios realizadores vêem.

Em 2000 fundou a ACT- School. Encontrou aí mais uma fonte de novos nomes?

Com certeza, mas a ACT foi criada por eu achar que havia uma lacuna na formação de actores. Não havia formação para a câmara. Cada vez que ia às fontes (às escolas e ao conservatório) chamar actores para os castings, eles não sabiam estar em frente a uma câmara. Eles projectavam demasiado a voz, eu dizia, “Mexe-te só um bocadinho”, mas um bocadinho num palco é muito e eles saiam-me do enquadramento. Foi assim que nasceu a ACT, de uma necessidade de mercado. É engraçado, no outro dia cheguei à conclusão que a minha vida profissional é muito pautada dessa forma: de inventar coisas que eu acho que o mercado precisa. É isso que me move. Há isto para fazer, bora fazer.

Foi nessa lógica de criar coisas novas que surgiu o Passaporte?

Sem dúvida.

E qual é a necessidade a que o Passaporte procura responder?

O Passaporte existe por uma razão muito simples: a internacionalização de actores. Nós estamos numa ponta da Europa e se não fizermos um trabalho de divulgação, ninguém sabe que existem actores que vivem em Portugal e que têm o talento que têm. A única hipótese é dar a conhecê-los e isso podia ser feito de duas maneiras. Posso dar as moradas aos actores e dizer-lhes “Vai lá bater à porta”, ou então, why not, trago os casting directors e apresento-lhes tudo na minha casa. Eu acho, sinceramente, que o talento português merece ser divulgado. O mercado também mudou e eu acho que a questão da nacionalidade já não é tão importante. Já não é do género: os actores espanhóis fazem de espanhóis. Nem é isso que eu pretendo. O que eu pretendo é que um actor português seja equacionado como qualquer outro.

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Patrícia Vasconcelos com os directores de casting convidados do Passaporte’17.

Da ideia inicial à prática, o que é que permaneceu e o que é que teve de ser deixado para trás?

Nada ficou deixado para trás. Levei três anos até implementar o Passaporte, até arranjar dinheiro para o fazer. Claro que há coisas que podemos ir melhorando, mas o Passaporte é exactamente aquilo que imaginei e como acho que tem de ser.
Os resultados destas duas primeiras edições corresponderam às expectativas?
Uma coisa que eu não crio é expectativas. Aprendi há muito tempo a não o fazer. Nunca espero por nada e assim tudo o que vier é bem-vindo. Trabalho é muito para que as coisas se concretizem. E tivemos a sorte de, no primeiro ano, o Albano Jerónimo ter ido logo para os Vikings. Isso foi na mouche e ajudou-me, depois, a convencer o Estado a voltar a investir dinheiro neste projecto.

São casos de sucesso como o do Albano Jerónimo que a fazem pensar que de facto está a valer a pena o esforço?

Acho que não é bem assim. A minha experiência profissional de muitos anos diz-me que normalmente um projecto, para começar a dar frutos, leva cinco anos. Se vier antes, tudo bem. O Passaporte teve esta good chance de, no primeiro ano, ter logo aquela visibilidade com o Albano, mas eu continuo sempre a dizer “Atenção que o Passaporte não é uma coisa que vai dar frutos logo”. O projecto permite ir lançando umas sementes, umas vão pegar e outras não.

É algo que leva tempo.

Sim, e a própria relação com os casting directors é algo que tem que se ir consolidando. Por isso é que, nesta edição, só os actores do ano passado é que podiam estar no cocktail. Para se poderem voltar a ver. É como se tivéssemos um computador interno, onde vamos guardando as nossas imagens, as nossas memórias, as pessoas que nos vão marcando. Na altura em que os casting directors estão a ler um guião há um click e há um nome que sobressai.

Da parte dos directores de casting, qual tem sido o feedback?

Maravilhoso. Eles estão encantados com o projecto. Às vezes dizem-me, “Se a Patrícia não tivesse feito isto, nós nunca íamos saber que existia um actor em Portugal assim”. Isso é o que me agrada, porque a minha luta era exactamente essa.

Passados 28 anos, continua a tentar aprender?

Sim, uma coisa maravilhosa no casting é que estamos sempre a aprender. Quando tenho um realizador a dirigir uma cena para o casting, por exemplo, eu tento sugar tudo aquilo que ele está a dizer. Além disso, nesta profissão temos, constantemente, de nos pôr em causa, temos de ouvir. A este nível, há algo que falta no Passaporte e que tenho de colmatar rapidamente. Eu não tenho tempo suficiente para estar com eles [directores de casting], para falar com eles e perceber se estamos no bom caminho.

Este ano, à semelhança do anterior, o Passaporte encerrou com a exibição do filme Casting By, que ilustra a “luta” pela afirmação do papel de director de casting. Como é que a Patrícia levou a cabo essa luta no contexto português?

Hoje em dia já há mais pessoas a fazer casting, ainda que não seja a tempo inteiro. O mercado abriu e sinto que eu acrescentei essa etapa à produção do audiovisual. A palavra existe. Durante muitos e longos anos, naquilo que era o orçamento de candidatura do ICA [Instituto de Cinema e Audiovisual] tínhamos todas as tarefas, menos a de casting. Era uma coisa que nem sequer se equacionava pagar. Mas o casting é uma profissão.

Alguma vez pensou que já estava na altura de se “encostar às boxes”?

Não, ainda é cedo. Eu continuo a ter o mesmo prazer que tinha no primeiro dia. Tenho 51 anos, acho que ainda tenho… ui ui ui, pelo menos 30 pela frente, para trabalhar na boa. Porque, para mim, não é trabalhar. Eu gosto mesmo daquilo que faço.

 

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